segunda-feira, 13 de dezembro de 2010


Natal de Quem?

Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau
Do perú, das rabanadas.


-Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!


-Está bem, eu sei!

-E as garrafas de vinho?

já vão a caminho!


-Oh mãe, estou para ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?


-Não sei, não sei...


Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus- Menino
Murmura baixinho:

-Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
-Então e Eu,
Toda a gente me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.

Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
-Então e Eu?
Toda a gente me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
-Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:

-Foi este o Natal de Jesus?!!!


João Coelho Dos Santos
(in Lágrima Do Mar-1996)
O meu mais belo poema de Natal







segunda-feira, 22 de novembro de 2010

MIGUEL TORGA
S.Martinho de Anta-Vila Real
1907-1975



Não tenho mais palavras

Gastei-as a negar-te...

(Só a negar-te eu pude combater

O terror de te ver

Em toda parte)


Fosse qual fosse o chão da caminhada,

Era certa a meu lado

A divina presença impertinente

Do teu vulto calado

E paciente...


E lutei, como luta um solitário

Quando alguém lhe perturba a solidão,


Fechado num ouriço de recusas,

Soltei a voz, arma que tu não usas,

Sempre silencioso na agressão.


Mas o tempo moeu na sua mó

O joio amargo que te dizia...


Agora, somos dois obstinados,

Mudos e malogrados,

Que apenas vão a par na teimosia.

Miguel Torga(1907-1995)


Miguel Torga, médico, escritor, cronista, poeta, gastou palavras a negar Deus. " Soltei a voz, arma que Tu não usas ". Deus calado e silencioso, nunca respondeu, nunca lhe disse: " Existo, estou aqui !" Miguel Torga desistiu de questionar -"Agora somos dois obstinados/ Mudos e malogrados/ Que apenas vão a par na teimosia ".

Os animais agem por instinto. Só o ser humano, pergunta, questiona, pensa. E nesse perguntar, surge a questão de Deus. Jesus morreu a perguntar " Meu Deus, meu Deus, porquê me abandonaste?

Qual o sentido da vida? Qual o sentido da existência humana? Vivemos e viveremos sempre cheios de dilemas, com mais dúvidas do que certezas. Mesmo os que afirmam que têm fé, terão de conviver com a inteligência, com a dúvida, com as perguntas. A vida é cruel e dura, mas todos temos momentos felizes . As pessoas alegres sabem disfrutar os momentos da vida, oferecem mais felicidade.

Qual o sentido da existencia humana? Qual o sentido da vida? São perguntas para as quais não encontramos respostas. Mesmo os que afirmam que têm fé, terão de conviver com a inteligência, com a dúvida, com a pergunta.

Frei Bento Domingues, citando a frase, atribuída por S.Lucas, ao próprio Jesus: «alegrai-vos porque os vossos nomes estão escritos nos Céus» escreveu: »Esta declaração de Jesus pode significar:alegrai-vos porque a vossa vida está para sempre inscrita no coração de Deus e ninguém vos poderá arrancar desse amor. Sois amados para sempre. E continua:«Não me perguntem como é que isso acontece,quando vemos cremar ou enterrar os mortos,ou nem isso. Confio que o amor que Deus nos tem é mais sábio e mais poderoso do que a morte, do que o pecado,do que as nossas vãs antropologias.»( Jornal Público 31/10/2010)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Pedreiras de Ançã

Ançã, freguesia de Cantanhede, reelevada à condição de vila a 12 de Julho de 2001.

A pedra de Ançã, pela sua brandura, é fácil de trabalhar. Admite toda a espécie de lavores, belos rendilhados ornamentais, estatuária... É utilizada na modelação de tantas e apreciadas obras de arte. É trabalhada por mãos hábeis de artistas portugueses e estrangeiros. Vários monumentos foram construídos, em pedra de Ançã.

António Gedeão, pseudónimo com o qual Rómulo de Carvalho, físico, poeta, professor, assinou a sua obra poética, ao visitar o Mosteiro da Batalha, foi nos pedreiros, que pensou. E deles disse:

Poema da Pedra Lioz

Álvaro Gois
Rui Mamede
filhos de António Brandão
naturais de Cantanhede
pedreiros de profissão
de sombrias cataduras
como bisontes lendário
modelam ternas figuras
na brutidão dos calcários.


Ali,no esconso recanto
só o túmulo,e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca...truca...
lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada românica,
como um cinzel que batuca
uma insistência satânico:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

Álvaro Gois,
Rui Mamede
filhos de António Brandão
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de surrobeco
e acocorados, no chão,
truca, truca, truca,truca.

No friso,largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um Cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.
Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.
Anginhos de de longas vestes,
e cabelos de caracois,
tocam pífaros celestes,
entre cometas e sois.
Mulheres e homens, sem paz,
esgazeados de remorços,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.


Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se entenda o truca...truca...
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.
No desmedido caixão,
grande senhor ali jaz.
Pupilo de Santanás?
Alma pura, de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso, tanto faz
António Gedeão

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Onde vivemos? Por que existimos?


O Sol é uma estrela,entre milhares de milhões de outras estrelas.A terra, o terceiro planeta a contar do Sol.A Lua, satélite da Terra.Por que existimos? Existimos porque existe uma estrela à distância certa da Terra-o Sol. A Terra é aquecida e iluminada pelo Sol.É um pontinho azul,perdido na escuridão imensa do Universo.É um,dos oito planetas, do sistema solar.
Planetas como o nosso,poderão existir e passar despercebidos.Existirão outras estrelas,que possuam um planeta, como a Terra? E se existir outro planeta como a Terra, terá vida? E se houver vida,será vida inteligente ou vida primitiva?
É o velho sonho da Humanidade - sabermos se estamos ou não sozinhos, no Universo.Os astronautas tiveram a oportunidade de olhar de longe para a Terra. Uma placa assinada pelos pelos astronautas Amstrong, Aldrin, Collins e pelo presidente americano Richard Nixon,assinala a presença dos homens na Lua-«Aqui os homens do planeta Terra,puseram pela primeira vez os pés na Lua.Julho de 1969.Viemos em paz e em nome de toda a Humanidade.»